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09 setembro 2019

Bruno Capinan amarga a ressaca da festa em álbum sobre insatisfações e solidões do mundo real

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Bruno Capinan é cantor e compositor baiano que vive na ponte Brasil-Canadá, fazendo a travessia intercontinental desde que migrou em 2002 para a cidade de Toronto.

A vivência cosmopolita do artista revestiu de modernidade a conexão com os sons africanos da Bahia natal que pautaram o terceiro álbum de Capinan, Divina graça (2016), lançado há três anos. Neste disco de aura gay, produzido por Domenico Lancellotti com a colaboração de Bem Gil e do próprio Capinan, o cantor comandou a festa da carne e do espírito com doses equilibradas de sexualidade e espiritualidade.

Real, o recém-lançado quarto álbum de Capinan, soa como a ressaca da festa que satisfaz o corpo, mas nem sempre o espírito. Assuntos de músicas como Real agora (Bruno Capinan e Ubunto) e Algoritmo (Bruno Capinan), o prazer fugaz acessado vias aplicativos sexuais vem embalado em solidão e desilusão.

Capa do álbum 'Real', de Bruno Capinan — Foto: Lucas Murnaghan

Real, o disco, se equilibra em tênue linha sombria. “Eu sou um equívoco / … / Serei / Sempre um equívoco”, deprime Capinan no tom cool de uma das músicas mais inspiradas do repertório autoral do álbum, Equívoco (Bruno Capinan).

Orquestrada por Capinan com o canadense Mark Lawson, engenheiro de som de álbuns da banda conterrânea Arcade Fire, a produção musical de Real cria temperatura cool que irmana o clima gerado pelo mix de sintetizadores, cordas – e cabe registrar o belo arranjo da já mencionada música Real agora – e percussões que revestem composições como Escorpião (Bruno Capinan) e Tropa, faixa de arquitetura pop eletrônica moldada por Ubunto, parceiro do artista na composição.

Nesse mergulho introspectivo do disco, há belezas que emergem ao longo das 12 músicas. Canção adornada com o canto de Mãeana, posto em tom quase etéreo, Do avesso (Bruno Capinan) é uma dessas belezas escondidas na atmosfera noturna do disco. O exuberante arranjo de cordas de Graham Campbell valoriza a faixa.

Bruno Capinan lança o quarto álbum, 'Real', com músicas de tom introspectivo — Foto: Alexandre Maciel / Divulgação

O álbum Real versa muito sobre ausências e carências, tema de Um flerte socialista (Bruno Capinan). Essencialmente cantado em português, o disco apresenta música em inglês, Love’s will, canção de acento folk gravada com a voz de Rubel, convidado desse instante solar de repertório que jamais evita a exposição de estados sombrios da alma.

“A pessoa que você / Me disse ser / Não era”, constata e martela o cantor, decepcionado, no refrão de Pessoa, parceria de Capinan com Domenico Lancellotti.

Arrematado com O pajem, música feita por Capinan a partir de poema do escritor português Mário Sá Carneiro (1890 – 1926), o álbum Real versa sobre mundo deprimido por solidões e insatisfações. É a ressaca da vida que às vezes parece uma festa. (Cotação: * * *)

Fonte:Vaga lume

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