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17 setembro 2019

Chico César oscila entre o amor e a guerra em disco pautado por fartura instrumental

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O título do 12º álbum solo de Chico César, O amor é um ato revolucionário, faz supor disco em sintonia com a ideologia pacifista do líder indiano Gandhi (1869 – 1948). As audições das 13 inéditas e autorais – todas compostas solitariamente pelo artista paraibano, sem parceiros – desfazem a impressão.

Grande compositor projetado na primeira metade da década de 1990, Chico César oscila entre o amor e a guerra na criação de repertório gravado com arranjos de fartura instrumental – há faixas com seis, sete e até oito minutos! – que se alinham com a verborragia das músicas ao mesmo tempo em que contrastam com a escassez melódica de algumas composições.

Na impaciente Eu quero quebrar, o artista revela o desejo de partir para a ação, de “tirar a ira do papel”, em arranjo que culmina com evocação do universo do soul e da música gospel norte-americana.

Capa do álbum 'O amor é um ato revolucionário', de Chico César — Foto: Divulgação

No reggae Pedrada, produzido por Eduardo BiD, Chico encarna espécie de Bob Marley (1945 – 1981) do sertão paraibano que fala na Babilônia enquanto vocifera contra os “cães danados do fascismo” que ajudaram a chocar “o ovo da serpente“, “fruto podre do cinismo“.

Em O homem do cobertor poluído, o cantor faz evocação pálida do cancioneiro folk rock de outro engajado Bob, o Dylan, para versar com acidez sobre os pequenos burgueses, também alvos da lúdica Cruviana. Nesta faixa, Chico César e a cantora pernambucana Flaira Ferro caricaturam os vocais para forjar a aura de cabaré circense.

Chico César versa sobre o amor em tempos virtuais em canções como 'Like' e 'History' — Foto: José de Holanda / Divulgação

Entre as mutações experimentadas ao longo das 14 faixas do longo álbum (Eu quero quebrar é reprisada ao fim do disco em outra gravação produzida por André Abujamra), Chico César soa mais fluente quando dialoga com a canção popular na viciante History, música produzida por Marcio Arantes e já previamente lançada em single.

No álbum, History dialoga com Like, outra canção sobre o amor nos tempos virtuais. “Quando curto essas besteiras que você posta / Às vezes, eu me sinto um bosta / Mas eu gosto / Pois eu sei que você gosta”, rima Chico com a simplicidade típica dos hits populares.

Feitas em ritmo mais frenético pela voz encorpada de Chico, as rimas de Lok ok sobressaem sem deixar de evidenciar a sonoridade de arranjo que destaca guitarra de toque africano. E por falar na África, o cantor exalta em As negras as mulheres que trazem o “axé vital” do continente matricial em faixa em que música e letra evoluem em fina sintonia.

Chico César canta no álbum uma música inspirada no fóssil de Luzia, relíquia do Museu Nacional do Rio de Janeiro — Foto: José de Holanda / Divulgação

Já Luzia negra – composição (sobre o ancestral fóssil humano do Museu Nacional do Rio de Janeiro) formatada com sete minutos na produção musical orquestrada por André Kbelo Sangiacomo com o próprio Chico César – exemplifica a verborragia e as longas passagens instrumentais com que são apresentadas várias músicas do repertório do álbum O amor é um ato revolucionário.

É tanta palavra em Minha morena – convite ao amor sensual – que a letra parece sobrar na melodia dessa música de oito minutos justificados pelo clima jazzy adotado na parte final da gravação.

Se o rock Mulhero (assim mesmo, com um o acrescido à palavra mulher) desperdiça tempo em jogo de palavras, De peito aberto manda recado feminista, de forma mais certeira e direta, aos “manés” que desrespeitam os direitos das mulheres governarem o próprio corpo e a própria vida. Chico dá o recado com o agudo reforço vocal da cantora paraibana Agnes Nunes.

Chico César assina a produção do disco com André Kbelo Sangiacomo — Foto: José de Holanda / Divulgação

Sim, Chico César sabe tomar posição e partido sem deixar de ser amoroso quando quer. Na música-título O amor é um ato revolucionário, o artista discorre sobre a natureza do amor após a introdução instrumental de um minuto e 20 segundos que remete ao universo ibérico latente na nação musical nordestina.

Guitarras e um coro de acento gospel sobressaem ao longo dos mais de sete minutos dessa faixa que representa o tom opulento de disco em que Chico César às vezes peca por excessos na revolução que propõe fazer com amor e com ação. (Cotação: * * *)

Chico César alinha 13 músicas no repertório inteiramente autoral do álbum 'O amor é um ato revolucionário' — Foto: José de Holanda / Divulgação


♪ Eis, na ordem do disco, as 13 músicas e os respectivos compositores de O amor é um ato revolucionário, 12º álbum solo de Chico César:

1. O amor é um ato revolucionário (Chico César, 2019)

2. Minha morena (Chico César, 2019)

3. Luzia negra (Chico César, 2019)

4. As negras (Chico César, 2019)

5. De peito aberto (Chico César, 2019)

6. Lok ok (Chico César, 2019)

7. Like (Chico César, 2019)

8. History (Chico César, 2019)

9. O homem sob o cobertor poluído (Chico César, 2019)

10. Mulhero (Chico César, 2019)

11. Eu quero quebrar (Chico César, 2019)

12. Pedrada (Chico César, 2019)

13. Cruviana (Chico César, 2019)

14. Eu quero quebrar (Chico César, 2019) – faixa-bônus

Fonte:G1

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