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23 setembro 2019

Em tempos sombrios, Gabriel o Pensador mira em rimas mais pesadas: “Desabafos meus”

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Intolerância, falta de empatia, violência, depressão, redes sociais. Sobrevivente, nova música de Gabriel o Pensador, aborda inúmeros temas pesados, ou como próprio rapper diz ao UOL: “Desabafos”.

Intolerância, falta de empatia, violência, depressão, redes sociais. Sobrevivente, nova música de Gabriel o Pensador, aborda inúmeros temas pesados, ou como próprio rapper diz ao UOL: “Desabafos”.

UOL – Sobrevivente é uma música mais pesada.

Gabriel o Pensador – Essa música veio do fundo da alma. Um desabafo de temas que mexeram muito comigo desde Brumadinho. Tudo isso veio remexer as questões lá de trás. Esse descaso com a vida de uma forma geral e a insensibilidade das pessoas. Tem muitos detalhes que as pessoas ouvem, mas nem sabem que são desabafos meus. Por exemplo, quando eu falo que “você foi estrangulado, quando o ar ficou pesado”. Essa é uma referência ao jovem que foi estrangulado pelo segurança no Rio. As pessoas falaram para ele soltar o menino, a mãe falando pra ele aliviar a gravata. E o garoto morreu. Os comentários das pessoas depois vêm com uma frieza. “Ah, mas tava drogado”. São coisas que mexeram comigo e eu juntei em uma musica só.

E o clipe?

Rafael Almeida e Cristiano Garcia dirigiram. As cenas de Brumadinho são do João Paulo Krajewisky. Ele é um cara que foi lá como um guerreiro pra documentar e estava revoltado com essa tragédia. Ele mesmo está na Amazônia agora. São pessoas que fizeram aquilo de coração. São imagens que vêm carregadas com muito sentimento.

Esse é um momento em que o rap tem muita pauta para trabalhar?

Não é só um momento. Historicamente temos um país muito problemático. Se as pessoas começarem a ficar ainda mais insensíveis, egoístas e cheias de ódio, os problemas só vão aumentar. A gente já vem de uma história difícil e só o caminho de colaboração e respeito pode aumentar nossa esperança. O clipe também fala da luz no fim da escuridão. A gente tem que acreditar. No clipe, o inseto é a esperança. Ele apareceu ali, pousou na mão, ficou no peito. Literalmente esperança no peito. Durante um tempão eu levei ele comigo. Estamos fazendo esse esforço pra esperança não desaparecer.

Sobrevivente tem rimas mais rápidas, um beat mais pesado

Nessa música eu aproveitei pra curtir isso mesmo. Fiz flows diferentes, vozes que mudaram ali durante a música. Na minha carreira sempre gostei de experimentar coisas novas. Essa música trouxe essas ideias. A batida mais moderna também me influenciou na hora de fazer a letra.

Você tem passado bastante tempo fora do país?

Esse ano viajei bastante para fazer shows e algumas viagens pra surfar. Fiz oito shows em Portugal e volto agora para fazer o nono. Fui para Angola também para fazer vídeos ligados ao surfe, mas volto em outubro para fazer show por lá. Esse ano particularmente parei pouco no Rio porque fiz muitos shows em turnê constante pelo Brasil. Não parei mais. Dei uma embalada grande. Parei pouco em casa.

Sobrevivente fala de redes sociais, intolerância, falta de empatia, violência. Desse universo de assuntos que você trata, o que mais te incomoda?

Não dá pra dizer qual é que mais me incomoda, mas eu fiquei feliz de tocar em assuntos que não são fáceis, como depressão e suicídio. Essa música tem um trecho importante que fala sobre as pessoas e que essa dor não é só delas. É um assunto para as pessoas se lembrarem. Por coincidência a música saiu no [mês do] Setembro Amarelo. Eu sempre conto de uma garota que me mandou uma mensagem por causa da música Fé na Luta. Ela tinha depressão desde os 13 anos e aquela música tinha salvado a vida dela quando, aos 21, ela tinha decidido acabar com tudo. No mesmo dia ela viu a música sendo lançada e como a letra falava sobre como o sim era mais forte que não, bem mais forte que o mal. Ela mudou de ideia e queria que eu soubesse. Respondi, entrei em contato, mas acabei me esquecendo. Só lembrava que ela era de Palmas, no Tocantins

E depois disso?

Aí oito meses depois fui fazer um show lá e não pude convidá-la porque não lembrava o nome, mas lembrei da história. Aí eu ia fazer um vídeo no palco dedicando a música pra ela: “Essa é pra aquela garota que desistiu de tirar a vida por causa do nosso som”. Quando eu falei isso, já começando a música, ela já estava na lateral do palco. Foi uma surpresa pra mim. Abracei ela e puxei pro meio do palco. Conversei com ela, perguntei pra ela se a vida valia a pena e ela disse: “Agora vale”. Foi arrepiante. Uma celebração da vida. Essa história está sempre comigo. Às vezes, um gesto ou uma música pode mudar uma vida.

Fonte: UOL

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