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01 abril 2019

MC Kevinho foi um fenômeno no Lolla Chile. Por que a edição daqui exclui ele e outros funkeiros?

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MC Kevinho é um dos cantores brasileiros de maior sucesso hoje. De “Olha a explosão” (2016) a “Agora é tudo meu” (2018), é difícil escapar dele e de seu bordão: “Cê acredita?”. Esse sucesso foi consagrado por uma multidão dançando e fazendo coro no Lollapalooza… de Santiago, no Chile.

Na edição brasileira mesmo ele nunca apareceu – nem está no lineup deste ano, mesmo que esteja na escalação chilena. Cê acredita? Não é só ele o excluído. O G1 notou em 2016 que funkeiros locais só aparecem via artistas gringos, como Beyoncé e Diplo, empolgados com nosso batidão.

Os vídeos desta sexta-feira (29) são impressionantes. Mas nem surpreendem a quem se lembrar que, lá em 2017, “Olha a explosão” invadiu as paradas da América Latina junto com “Bum bum tam tam”, de MC Fioti. Os hits contaram pouco com marketing e muito com a originalidade das batidas.

Assista aos vídeos abaixo, com a multidão no Chile cantando as músicas e carregando cartazes para Kevinho e tente entender: por que um show de funk assim nunca aconteceu nas sete edições anteriores do festival aqui do Brasil, e nem vai acontecer em 2019?

Quando o G1 fez essa pergunta lá em 2016, uma hipóteses era de a produção de shows de funk não ter o nível de grandes festivais. Realmente, alguns MCs fazem shows curtos com produções simples – são “maratonas” com várias apresentações de 20 minutos na mesma noite.

Mas cantores mais famosos, como Kevinho e Jerry Smith, já têm estrutura de turnê profissional do tamanho de sertanejos, rodando pelo interior. O sucesso no Chile joga no chão essa desculpa de que a força do funk na internet não existe em um palco de grande festival.

Difícil dizer também que o funk não se encaixa no “perfil do público”. Basta andar por casas noturnas da Rua Augusta, em SP, com público semelhante ao Lolla. Lá, o rock divide cada vez mais espaço com pop, rap e funk. O festival incorporou bem o pop e o rap nos últimos anos. Já o funk…

Só sobra a hipótese do preconceito mesmo, de não se dar o valor suficiente para colocar estes MCs num festival de nível internacional com ingresso a R$ 1.500. Talvez o batidão “da favela” também não agrade aos patrocinadores que querem colar suas marcas na do Lolla.

E o Rock in Rio com Anitta e ‘Espaço Favela’?

Mas se existe esse preconceito, o que dizer da presença de Anitta no Rock in Rio 2019, que ainda terá um “Espaço Favela”? O tal espaço terá representantes da “música e da culinária das comunidades do Rio”, e vai incluir o funk, disseram os organizadores.

Um evento de apresentação do Espaço Favela teve o pianista de Jazz Jonathan Ferr, a cantora pop Tuany Zanini e, representando o funk, os veteranos Cidinho e Doca, que foram importantes mas hoje não fazem mais sucesso.

Difícil saber o que é pior: ignorar o funk ou segregá-lo neste espaço menor. O funk ocupa hoje o centro do pop brasileiro. Periferia é o rock, o heavy metal, o axé e outros estilos que continuam com representantes brasileiros no Palco Mundo.

Anitta, que também esteve no Rock in Rio Lisboa e lá discursou em defesa do funk, representa, sim, uma vitória para o estilo. Mas ela vai ao Palco Mundo como bem mais que uma funkeira. Já cantou até bossa nova. Dos 11 convidados que anunciou para seu disco, a única do funk é Ludmilla, colega de gravadora.

Favela de verdade

É bom notar que o funk que Beyoncé (“Passinho do volante”) e Diplo (“Tá tranquilo, tá favorável”, com MC Bin Laden) levaram para seus shows não era “de gravadora”. Era o som da favela – não a favela estilizada do Rock in Rio, mas a de verdade.


Os hits de Kevinho, mesmo que ele já tenha um produção “rica”, também ainda tocam em fluxos e paredões da periferia pelo país. Mas não é dessa vez que esse som vai chegar também a Interlagos.

Outro argumento poderia ser de isso não faz diferença para os MCs. Será que eles estão interessados em tocar no Lollapalooza se já têm suas carreiras andando e já tocam em festivais populares nacionais e festas pelo interior?

Após mostrar as imagens do show do Chile no Instagram, Kevinho fez outros vídeos emocionado, quase chorando por ter tocado em um evento daquele. Interesse eles parecem ter, sim.

Passaporte negado

Tocar em um evento como o Lollapalooza dá cacife para qualquer artista. Vários MCs de funk têm cifras de streaming notáveis fora do Brasil. Ter um Lolla no currículo pode abrir portas para o circuito mundial de festivais abertos a novidades, de Coachella a Glastonbury.

A perda de oportunidade não é só musical. Quem acompanha o fenômeno do k-pop sabe como seus jovens fãs acabam se interessando por tudo que vem da Coreia do Sul. É “soft power”, poder cultural, e também dinheiro. Nem precisa gostar do som do k-pop para ver seu valor.

O Brasil tem um produto cultural original e poderoso, que encanta estrangeiros. Mas o próprio mercado do país parece não dar o valor devido, talvez por vergonha de si mesmo.

Fonte:G1

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