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24 setembro 2019

Revolução de Chico Science é dissecada em livro sobre o disco ‘Da lama ao caos’

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“Você tem mesmo que falar sobre isso?”, indagou o cantor e compositor Otto, ressabiado, para a jornalista Lorena Calábria ao ser questionado sobre a omissão do nome dele nos créditos de Rios, pontes e overdrives (Chico Science e Fred Zero Quatro, 1994).

Sim, a autora do melhor título nacional da série O livro do disco fala sobre “isso” na narrativa em que disseca o álbum Da lama ao caos (1994) – pedra fundamental da discografia do Mangue Beat – ao mesmo tempo em que repisa os caminhos nem sempre retos que levaram o pernambucano Francisco de Assis França Caldas Brandão (13 de março de 1966 – 2 de fevereiro de 1997), o imortal gênio Chico Science, a revolucionar a música pop do Brasil com o primeiro álbum da banda Nação Zumbi.

Isso” – a ausência do nome de Otto nos créditos de Rios, pontes e overdrives – ainda é motivo de ressentimento porque versos da letra dessa música reproduzem a sequência de bairros locais criada por Otto para jingle composto por ele para campanha de candidato a prefeito da cidade do Recife (PE). Jingle cantado por Science a convite do próprio Otto, diga-se.

Na época do lançamento do álbum Da lama ao caos, Otto se viu com a chance de ordenar pela Justiça o recolhimento do disco que mal acabara de chegar às lojas. Optou por nada fazer em favor da cena que começava a ser notada pelo Brasil. “Eu era um garoto e pude me testar como homem, provar meu caráter”, limitou-se a dizer Otto para Lorena Calábria.

Capa do livro sobre o disco 'Da lama ao caos' — Foto: Divulgação


Lançado pela editora Cobogó, O livro do disco – Da lama ao caos – Chico Science & Nação Zumbi revisita as curvas do caminho que começou a ser trilhado em fins dos anos 1980 por Chico com outros cantores, compositores, músicos e agitadores culturais da cena do Recife (PE).

Embora essa história já tenha sido contada algumas vezes, em livros anteriores como Mangue Beat – Guitarras e alfaias da lama do Recife para o mundo (2017), Lorena Calábria acrescenta dados ao recontá-la porque, com perseverança jornalística, foi atrás de todos os envolvidos para fazer a minuciosa reportagem apresentada em livro excelente.

Pela determinação da repórter, reaparecem assuntos delicados como a omissão do nome de Otto nos créditos de Rios, pontes e overdrives, uma das músicas mais emblemáticas do álbum em que a Nação Zumbi – antenada com os sons do universo internacional do rap, do rock e do funk – mergulhou na lama dos mangues do Recife (PE) para reprocessar ritmos locais, como o coco e o maracatu, com mix explosivo e original de alfaias, guitarras e psicodelia, fazendo nascer o Mangue Beat, movimento pop que reinseriu Pernambuco no mapa da música brasileira com a mesma força dos anos 1970.

Um dos méritos da autora é ter procurado Liminha – o produto musical oferecido à Nação Zumbi pela gravadora Sony Music no lugar de Arto Lindsay, nome ambicionado pela banda para dar forma ao álbum. No estúdio carioca Nas Nuvens, QG do produtor, Liminha abriu os canais de todas as faixas do disco para Lorena, contando detalhes do processo de gravação de cada música.

Morto em 1997, Chico Science é o personagem principal do livro-reportagem de Lorena Calábria — Foto: Divulgação

Essa parte do livro é enriquecida pelos depoimentos de todos os músicos da Nação. Além de esmiuçar a confecção técnica das músicas, relatando eventuais tensões entre banda e produtor, a jornalista explica detalhadamente as (múltiplas) referências das letras de Chico Science, o que enriquece a história e sintoniza o faixa-a-faixa com a narrativa da primeira parte do livro, dedicada à pré-história do disco, à movimentação que gerou o Mangue Beat e, de forma quase intuitiva, foi organizando o movimento a partir de bandas seminais como Lamento Negro.

Como a inquietação de Chico Science é o motor que alavancou a cena recifense do início dos anos 1990, o mentor da Nação é o protagonista do livro. Mas os outros personagens da história também ganham no livro o devido crédito, sobretudo Fred Zero Quatro, líder da banda Mundo Livre S/A – grupo que jamais se pôs no papel de rival da Nação Zumbi, embora alguns ciúmes entre Zero Quatro e Science tenham se insinuado ao longo da jornada sem jamais ganhar peso na história.

Até porque, como a narrativa do livro deixa claro, Chico Science foi um agregador que soube beber de muitas fontes e, por isso mesmo, fazia questão de aglutinar colegas de cena e geração.

Assunto de várias das 212 páginas do livro, a saga da capa do álbum Da lama ao caos – criada por Helder Aragão (vulgo DJ Dolores) e Hilton Lacerda (vulgo Morales) – exemplifica o espírito de união da banda no embate quase cotidiano com uma indústria fonográfica que ainda tateava no mangue, no qual mergulhou somente por sentir o faro do sucesso que, no caso do álbum de estreia da Nação, nunca foi comercial, mas de prestígio e reconhecimento entre críticos e colegas do meio musical.

Decorridos 25 anos da edição desse primeiro álbum da Nação Zumbi, Da lama ao caos resiste bem ao tempo que lhe deu o status de disco histórico por ser de fato um dos títulos essenciais e definidores da discografia brasileira da década de 1990.

Com texto saboroso e fluente, Lorena Calábria mergulha no mangue e emerge de lá com livro-reportagem escrito com estilo, alguma emoção (por ter convivido com personagens da história) e farta dose de informação sobre uma revolução que merece ser louvada para novas gerações. (Cotação: * * * * *)

Fonte:G1


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