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05 setembro 2019

Virgínia Rodrigues eleva músicas na feminina rota lusófona do álbum ‘Cada voz é uma mulher’

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Há algo de espiritual no canto de Virgínia Rodrigues. Treinada nos púlpitos de igrejas de Salvador (BA), cidade natal dessa cantora de 55 anos, a lírica voz celestial da intérprete parece acessar canais profundos da ancestralidade, sobretudo quando posta a serviço de repertório afro-brasileiro.

Sexto álbum de Virgínia Rodrigues, Cada voz é uma mulher amplia o território da intérprete ao promover a conexão da artista com compositoras de países de língua portuguesa como Angola, Brasil, Cabo Verde, Moçambique e Portugal.

Nessa rota lusófona, o disco descortina belezas como Sumaúma (2018), canção da compositora angolana Aline Frazão abordada em gravação conduzida por violões com a base sólida dos atabaques.

Capa do álbum 'Cada voz é uma mulher', de Virgínia Rodrigues — Foto: Rodrigo Sombra e Inaê Moreira

Mesmo quando algumas das noves músicas do disco soam aquém da voz da intérprete, caso de Ave leve (Iara Rennó sobre poema de Antônio Risério), o canto de Virgínia eleva a composição nas asas da requintada produção musical orquestrada por Leonardo Mendes e Tiganá Santana – este também na função de diretor artístico do álbum Cada voz é uma mulher – e o resultado é gravação sedutora como a de Ave leve.

Leonardo Mendes e Tiganá Santana entendem a natureza do canto de Virgínia Rodrigues, cuja voz soa menos solene ao cair com nobreza no samba Vedete da favela (1961), título da lavra da escritora, cantora e compositora mineira Maria Carolina de Jesus (1914 – 1977), imortalizada pelo livro Quarto de despejo (1960).

Como o título Cada voz é uma mulher já deixa entrever, o sexto álbum de Virgínia Rodrigues está enraizado na conexão intercontinental e feminina entre mulheres de origens distintas, únicas, mas unificadas pelo desejo de ter voz ativa em mundo ainda dominado pelo patriarcado.

Virgínia Rodrigues costura narrativas femininas ao longo das nove músicas do disco 'Cada voz é uma mulher' — Foto: Pico Garcez / Divulgação

Dentro desse contexto, músicas como Ter peito e espaço (2017) – parceria da cantora e compositora portuguesa Sara Tavares com João Pires e Edu Mundo – e Um beijo de beira (Alzira E e arrudA) fazem mais jus ao conceito do disco do que ao canto geralmente profundo de Virgínia Rodrigues.

O conceito do álbum Cada voz é uma mulher também legitima o dueto da cantora com Mayra Andrade, voz proeminente de Cabo Verde, em Stória stória (2009), música com versos na língua crioula do país africano.

Criados por Leonardo Mendes e Tiganá Santana com Joana Queiroz, os arranjos do disco Cada voz é uma mulher geralmente harmonizam cordas, sopros e percussões com a delicadeza que rege Oração do anjo (Ceumar e Mathilda Kovak, 2005) e Asas (Luedji Luna, 2017), dois indícios de que o repertório do disco poderia ter sido selecionado com maior rigor para ficar à altura do canto de Virgínia Rodrigues.

Virgínia Rodrigues grava músicas de compositoras de Angola, Cabo Verde, Moçambique e Portugal — Foto: Pico Garcez / Divulgação

Esse canto é tão forte que a música sem letra que encerra o disco – Yimbelelani, tema da compositora moçambicana Lenna Bahule – expressa emoção nos vocais da cantora e da própria autora, convidada deste disco escrito com narrativas femininas pautadas pela sensibilidade.

Mesmo sem roçar o sublime como títulos anteriores da discografia da artista baiana, sobretudo Sol negro (1997) e Mama Kalunga (2015), Cada voz é uma mulher é álbum que reitera a força do canto e da personalidade de Virgínia Rodrigues. (Cotação: * * * 1/2)

Virgínia Rodrigues faz dueto com Mayra Andrade na regravação de 'Stória, stória' — Foto: Pico Garcez / Divulgação

Fonte:G1

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