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20 agosto 2019

Zizi Possi domina cena ao afinar teatro e música em denso espetáculo sobre estar ‘doente de uma folia’

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Denso espetáculo idealizado e roteirizado como monólogo teatral costurado por música, À flor da pele arranca de Zizi Possi um talento insuspeitado dessa grande cantora do Brasil. Ou talvez nem tão surpreendente assim quando se sabe que, antes de se firmar como cantora, Zizi estudou artes cênicas e chegou a atuar em musical intitulado Marilyn Miranda e encenado em Salvador (BA) em meados dos anos 1970.

O fato é que, mais de 40 anos após essa juvenil incursão pelo universo teatral, a intérprete acerta o tom de texto confessional sobre a depressão, encenado sob a direção do irmão, José Possi Neto, consagrado diretor de teatro.

Com entonações e inflexões precisas, Zizi harmoniza texto e música com a habitual afinação da voz cristalina, ainda em forma. A ponto de parecer que composições como o samba-canção Preciso aprender a só ser(Gilberto Gil, 1973) foram feitas para serem encaixadas no texto construído a partir de relatos da própria cantora, amalgamados por José Possi Neto com escritos de Eduardo Ruiz e até do filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844 – 1900).

Zizi Possi costura música e textos com precisão no espetáculo 'À flor da pele' — Foto: Caio Galucci / Divulgação

Estreado em 2017 pela cantora paulistana, o espetáculo À flor da peleestá sendo reposto em cena neste mês de agosto de 2019 em miniturnê que estreou na cidade de São Paulo (SP) no último fim de semana e que vai passar por cidades como Maceió (AL).

Na reestreia no Teatro Paulo Autran do Sesc Pinheiros, em 16 de agosto, À flor da pele se impôs como um dos grandes momentos da trajetória de Zizi Possi nos palcos, pela alta costura do texto com a música, pela beleza plástica da cenografia – marca de José Possi Neto como diretor de teatro – e pela densidade alcançada por Zizi na interpretação de canções como Se eu quiser falar com Deus (Gilberto Gil, 1980) e O que será (À flor da pele) (Chico Buarque, 1976), abordadas no contexto teatral do espetáculo com os toques dos músicos Vinícius Gomes (no violão e na guitarra) e Guilherme Ribeiro (nos teclados e no acordeom).

Ao dar voz intensa à letra da música que batiza o espetáculo, O que será (À flor da pele), a cantora sintetiza a dolorida viagem interior feita por quem sofre de depressão. O texto versa sobre “o que queima por dentro”, os ardores que atiçam, os tremores que agitam. Zizi experimentou pela primeira vez a sensação de estar “doente de uma folia” em 11 de setembro de 2001, dia do ataque terrorista às torres gêmeas do World Trade Center em Manhattan, epicentro de Nova York (EUA).

O relato de À flor da pele parte desse acontecimento que abalou a humanidade porque, a partir desse dia, o mundo de Zizi começou a cair como as torres sem que, de início, ela se desse conta da progressiva implosão que a fez imergir em espessa poeira existencial.

Zizi Possi arrebata ao interpretar 'Se eu quiser falar com Deus' no espetáculo 'À flor da pele' — Foto: Caio Galucci / Divulgação

A força motriz do espetáculo reside na perfeita alquimia do roteiro. Enquanto narra a jornada para recuperar o ar e vir à tona (com a ajuda de remédios), Zizi expressa sentimentos tanto pelo texto quanto pelas letras de músicas como Morrer de amor (Oscar Castro Neves e Luvercy Fiorini, 1966) e Amanhece (Ana Carolina, 2017).

Essas letras complementam o texto, potencializando a força de relato que, sem a música, talvez perdesse boa parte do teor emocional. E, para que isso aconteça, Zizi e José Possi submetem às canções ao tom do texto. As músicas quase sempre surgem fora das molduras convencionais dos shows.

A cantora arrisca outros tons para Admito que perdi (Paulinho Moska, 1995) – redividindo a música em clima bluesy – e descerra Janelas abertas nº 2 (Caetano Veloso, 1971) com dissonâncias no arranjo, além de esboçar insanidade no gestual e na interpretação da Balada do louco(Arnaldo Baptista e Rita Lee, 1972).

Mesmo que a tentativa de desanuviar o clima com a espirituosidade da Canção para inglês ver (Lamartine Babo, 1931) seja desnecessária, À flor da pele revelou coesão na volta à cena, provável efeito dos cortes efetuados pelo diretor José Possi Neto na retomada do espetáculo (as canções Béradêro e Pela internet, de Chico César e Gilberto Gil, respectivamente, foram limadas do roteiro na corrente versão).

No molde atual, o espetáculo resultou sedutor, até porque a vinda à tona da personagem se dá (também) através da valorização da música e, no caso de Zizi, do canto, celebrado em Sangrando (Gonzaguinha, 1980).

Canções como Não tenho medo da vida (Gilberto Gil, 2010), La vida es mas compleja do que lo parece (Jorge Drexler, 2006) e Mon coeur s’ouvre à ta voix (Camille Saint-Saëns, 1877) – ária popular da ópera Sansão e Dalila (1877) que se impõe como um dos momentos mais belos e emotivos do roteiro musical ao lado de Se eu quiser falar com Deus e da música-título – se encarregaram de dar o recado final, sem falso otimismo, sem pieguice e sem autoajuda.

A pulsão vital volta e, mesmo sem já estar “doente de uma folia”, Zizi Possi arremata o espetáculo com a apoteótica reprise da canção-título O que será (À flor da pele), com o arranjo de tom épico fazendo brotar uma interpretação que bole por dentro do espectador. Até porque, sobre todas as coisas, Zizi Possi é uma das maiores cantoras do Brasil. (Cotação: * * * * *)

Zizi Possi canta 15 músicas no espetáculo teatral 'À flor da pele' — Foto: Caio Galucci / Divulgação

♪ Eis o roteiro seguido por Zizi Possi em 16 de agosto de 2019 na reestreia do espetáculo À flor da pele no Teatro Paulo Autran do Sesc Pinheiros, na cidade de São Paulo (SP):

1. Morrer de amor (Oscar Castro Neves e e Luvercy Fiorini, 1966)

2. Sobre todas as coisas (Edu Lobo e Chico Buarque, 1983)

3. Preciso aprender a só ser (Gilberto Gil, 1973)

4. Admito que perdi (Paulinho Moska, 1995)

5. Amanhece (Ana Carolina, 2017)

6. Janelas abertas nº 2 (Caetano Veloso, 1971)

7. Se meu mundo cair (José Miguel Wisnik, 1992)

8. Se eu quiser falar com Deus (Gilberto Gil, 1980)

9. O que será (À flor da pele) (Chico Buarque, 1976)

10. Balada do louco (Arnaldo Baptista e Rita Lee, 1972)

11. Canção para inglês ver (Lamartine Babo, 1931)

12. Não tenho medo da vida (Gilberto Gil, 2010)

13. La vida es mas compleja do que lo parece (Jorge Drexler, 2006)

14. Mon coeur s’ouvre à ta voix (Camille Saint-Saëns, 1877)

15. Sangrando (Gonzaguinha, 1980)

16. O que será (À flor da pele) (Chico Buarque, 1976)

Fonte:Vaga lume


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